A ENFERMEIRA COMO EDUCADORA
Marisa Correia Hirata
A
situação-problema foi identificada num Centro de Saúde da cidade do Salvador,
Bahia, Brasil, que desenvolvia um
Programa de Assistência à Saúde do Adolescente com 193 jovens, dos quais 51
eram do sexo masculino e 142 do sexo feminino. Entre as adolescentes, 62 entre
12 e 19 estavam grávidas e referiram
não terem planejado a gravidez.
Situação-Problema –
Alto índice (43,66%) de
gestações não planejadas em adolescentes de 12 a 19 anos.
Encaminhamentos – Os fundamentos filosóficos para encaminhar esta questão tiveram como base o 1° princípio da educação libertadora de Freire (1987), a Colaboração, a qual prediz como princípios para a ação pedagógica: 1.Análise Crítica e Desvelamento do Mundo; 2.Comunicação e Diálogo; 3.Ação Criadora; 4.Desconfiança da Ambigüidade; 5.Humildade e Capacidade de Amar. Os fundamentos teóricos para a solução da situação-problema tiveram como aporte metodológico o Planejamento Estratégico-Situacional de Carlos Matus, um dos mais aprimorados trabalhos surgidos no âmbito da planificação social, ao se considerar planejamento um mobilizador político.
Este enfoque possui 4 momentos que se entrelaçam num ir e vir como as ondas do mar, mas que por uma questão didática, são apresentados separadamente. São eles:
Momento Explicativo.
Corresponde na educação libertadora de Freire à Análise Crítica e
Desvelamento do Mundo, o qual analisa e mostra nos espaços geral, particular e
singular, as regras, as acumulações e os fatos, e como é o mundo e a
sociedade em que as adolescentes que não planejaram sua gravidez, vivem (Tabla
1). Neste mesmo
momento, correspondendo ao que
Freire denominou de Comunicação e Diálogo, é
traçada uma rede explicativa de porquês (Tabla
2), sobre os fatos, os
condicionantes e os determinantes da gravidez precoce e não planejada em
adolescentes. Esta rede explicativa indica aspectos políticos e culturais como
a causa da situação-problema estudada.
Momento Normativo. Este
é o momento em são elaboradas as propostas e deslindado os nós
identificados juntamente com a
comunidade. Este plano de ação deve
espelhar a situação desejada, ou
seja, reflexões sobre sexualidade,
suas manifestações psico-afetivas, educação sexual das adolescentes, saúde
reprodutiva, gravidez precoce, etc., bem como a explicitação de objetivos,
prazos e responsáveis. Este momento tem correspondência
em Freire como a Ação Criadora, o qual traz a possibilidade da educação
como instrumento libertador, gerar comportamentos
mais adequados e responsáveis na adolescente quanto a gravidez.
Momento Tático-Operacional.
Este momento responde ao fazer
o qual consiste numa permanente mediação entre o conhecimento e a ação
concreta efetuada no presente mas com impacto num futuro desejado, isto é, o deve
ser. É o momento das comparações
entre os efeitos reais e os efeitos esperados, através de
indicadores (Tabla
4), o qual pode corresponder em Freire com a Humildade e Capacidade de Amar,
interpretadas enquanto persistência e despreendimento na colaboração
para com os oprimidos. É este também
o momento que pode possibilitar à
adolescente avaliar, conscientemente, o impacto de uma gravidez indesejada no
que tange à sua saúde, à escolaridade, ao trabalho, no seu projeto de vida enfim.
2. Adolescentes
em situação de rua
A
situação-problema trabalhada foi na Casa de Oxum, parte de uma organização
Municipal (Salvador, Bahia, Brasil) que mantém parceria com outras instituições
e destina-se a acolher meninas que
estão na rua, perderam o vínculo familiar, vivenciando assim uma situação de
não cidadania. A peculiaridade do local é que estas meninas
ali permanecem só das 18h às 6h-7h da manhã, quando são encaminhadas
para outras instituições e/ou setores conveniadas como escolas, oficinas,
aulas de dança, música, moda, circo, de acordo com o tempo em vêm sendo
trabalhadas ou suas próprias opções.
Situação-Problema:
vivência de não cidadania.
Encaminhamento:
O embasamento filosófico para o encaminhamento
desta questão foi efetuado através do 2° princípio da educação libertadora de Freire
(1987) União
para a Libertação, o
qual prediz como princípios para a ação pedagógica: a
unificação como Eu; a
demitificação da realidade; a divisão do conhecimento/afeto/agir; a
solidariedade de classe e a descoberta como sujeito singular.
O primeiro contato com as adolescentes foi através da clínica, cuja proposta foi uma discussão sobre uma terapêutica alternativa, os Florais de Bach, fazendo uma exposição de slides das flores e correlacionando-as com as emoções, sentimentos, pensamentos em desalinho causados pela pelo sofrimento, pelo choque, pelo medo, baixa estima, etc. A exposição/discussão suscitou interesse de todas as adolescentes as quais se dispuseram a fazer uma consulta de enfermagem onde o levantamento de dados para os encaminhamentos abrangeu os padrões perceptual-cognitivo, espiritual, social e fisiológico.
Neste
caminhar, foi proposto uma dinâmica que consiste no desenho do corpo humano
utilizada com o objetivo de levar a adolescente a expressar sua auto-imagem
na perspectiva de unificar-se como Eu e oportunizar discussões sobre seu
auto-conceito como descoberta enquanto sujeito
singular. Esta dinâmica foi denominada
de dinâmica do território mínimo,
por considerar o corpo como um território,
e a partir deste conceito, discutir como as adolescentes
como elas se vêem, o que
gostam e o que não valorizam em seu corpo, etc. Esta técnica promove a
oportunidade de expressão da auto-imagem,
do auto-conceito, como cuidar de si mesmas que são
aspectos da auto-estima. Este momento constou dos seguintes passos:
Discussão
com o grupo de adolescentes sobre o entendimento da palavra território;
Consenso
que nosso corpo pode ser considerado nosso território
mínimo;
Solicitação
que as adolescentes trabalhem em duplas onde uma deita-se sobre uma folha de
papel metro e a outra faz-lhe o contorno do corpo com lápis cera; em
seguida troca-se de posição
até que todas tenham o contorno do seu próprio corpo;
Disposição de material como tinta guache, lápis e papel colorido, cola, contas, etc. para cuidar da figura desenhada;
Identificação
da figura com nome, recortá-la e pregar na parede;
Verbalização
sobre o que gostam na figura desenhada, o que não gostam e como cuidam
deste seu território.
A verbalização do cuidar da figura criada é encaminhada para um olhar de si mesma, e oportunizou desdobramentos como discussões sobre características raciais, valores estéticos com narrativas das adolescente sobre a insatisfação com a auto-imagem, quanto a cor da pele ser negra, cabelos encaracolados, outros, etc. Com estas discussões pressupõe-se a libertação quanto a desvalorização da auto-imagem e encaminhamentos para a aceitação da mesma ao ser implementado um novo conhecimento. Surgiram também discussões de como as adolescentes fazem prevenção de doenças sexualmente transmissíveis incluindo AIDES, gravidez, cuidados higiênicos, cuidados estéticos e como defendem seu território mínimo nas ruas. Este trabalho oportunizou também que elas participassem da aprendizagem do estilo afro-jamaicano de pentear e enfeitar os cabelos, dividindo conhecimentos, afetos e forma de agir.
A
auto-criação da clareza no intercâmbio de afetos no conceito foi enriquecida através da narrativa da Lenda da Beleza,
com o objetivo de demitificar a
realidade.
Questões:
- Por que as adolescentes
negras em situação de rua têm baixa auto-estima? - Por que o predomínio do
padrão nórdico de beleza?
Encaminhamento
– O encaminhamento destas
questões foi efetuado através da adaptação de uma lenda
de Tahan (1997), que narra sobre a incumbência de um súdito em achar a
beleza e destruí-la a mando de seu senhor.
Isto o levou a viajar por vários continentes
onde a beleza é descrita e mostrada diferentemente, de acordo com os
tipos físicos continentais e padrões das
diversas culturas. O encontro do mensageiro com a beleza no continente africano
foi acrescentado com valorização dos seus atributos, pois este não
constava no conto original. A lenda finaliza com o retorno do súdito sem
cumprir sua missão pois a beleza aparece com faces sempre belas mas diversas,
em diferentes partes do mundo, o que impossibilita sua destruição.
As
discussões avançaram pelo caminho da solidariedade, da análise crítica da
opressão sofrida pela raça negra, com o desvelamento de aspectos da colonização
perversa, a valorização de outros
padrões de beleza e a auto-aceitação
o que se reverte no conjunto do trabalho efetuado, em apoio à
auto-estima, a identidade e a cidadania.
Fundamentos sobre a
auto-estima - A auto-estima
tem sua morada na consciência que por sua vez é um fenômeno espiritual, isto
é, transcendente, portanto, característico e único do ser humano e que
funciona interagindo com outras forças da personalidade. Este princípio pressupõe o ser humano guiado
por sua consciência o que o torna capaz de opções, e decisões para
transformar e ser transformado ao acionar mecanismos
que podem sustentá-lo, preservá-lo
e/ou re-alimentar positivamente sua auto-estima. Esta pode ser considerada uma
espécie de sistema imunológico, provedora de resistência, força e capacidade
regeneradora que favorece um grau
maior ou menor de competência para caminhar a vida,
amar e receber amor, de cuidar-se e
ser cuidado. Considera-se também que a auto-estima possui
capacidade de monitorar nosso sistema de alerta, o que nos previne contra
perigos, riscos e até acidentes, podendo também no seu estado negativo,
agir ao revés, e em momentos críticos da vida, não atuar
positivamente, mas favorecer a materialização de desajustes, ações e/ou
estados mórbidos, enquanto reflexo das visões e/ou desejos mais íntimos que
temos de nós mesmos, por uma auto-estima desvalorizada e um contexto social
adverso.
A
partir destes pressupostos, o cuidar para adolescente em situação de rua leva
em consideração três razões
principais para trabalhar a auto-estima:
1.
A missão da adolescência é a formação da identidade,
a qual surge em meio a conflitos, por conta de ser este um
momento de vivências de um mundo interior intenso, e de exploração do
mundo exterior;
2.
A auto-estima se constitui num valor de bem-viver e de competência para a vida;
3.
Há predominância da inclinação para
o risco na adolescência,
sob influência do sistema social, o
que determina uma alta mortalidade por causas externas
criando um paradoxo, desde que a morbidade nesta faixa etária é baixa
comparativamente.
O
cuidar na perspectiva da auto-estima
pressupõe um cuidar que utiliza o corpo físico como um acesso para um
cuidar sutil, se caracterizando
como uma espécie de alimento para o espírito, ou seja, é um cuidar com
conhecimento de especificidades que favorecem a promoção do auto-conhecimento
e do auto-crescimento, buscando organizar forças subjetivas e/ou sociais que
podem transformar o Ser, portanto, seu destino.
Fundamentos sobre a cidadania - O conceito de cidadania se fundamenta em pressupostos histórico-filosóficos, com aspectos abstratos, e só se configura no indivíduo – o cidadão ou cidadã. É fato também que este conceito não pode estar separado do conceito de democracia que é o que confere o direito de se lutar pela cidadania, ou seja, do direito a ter direitos.
As características e os atributos do cidadão, de direitos e deveres, de condições dignas de vida, com acesso a conteúdos sócio-econômicos, levam que se identifique o não cidadão, ou seja, aquele indivíduo que não possui as referências que identificam um cidadão, que ficou à margem, que foi excluído.
O cuidar na perspectiva da cidadania pressupõe, além do fortalecimento da auto-estima, o conhecimento da Constituição Federal, comparação com outros modos de viver de outros povos ou grupos sociais, num processo crítico de busca em romper a alienação histórico-social existente e o fatalismo. Inclui encaminhamentos em direção às atividades e ações que promovem e/ou influenciam o autocrescimento e a transformação, com distinção e discussão sobre os direitos civis, políticos e sociais, que são conquistados num constante afrontamento com os poderes constituídos e limitantes de uma cidadania plena.
A
concepção dos direitos
civis indica a
igualdade perante a Lei – direitos de pensamento e fé; de ir e vir; à
propriedade; à conclusão de contratos pessoais e à justiça única para todos
independente de cor, raça ou religião. Os direitos
políticos dizem respeito à aptidão para decidir politicamente – votar, ser
votado, organizar-se, mobilizar-se, escolher conscientemente representação e
novas formas governamentais. Os direitos
sociais são consubstanciados a partir
do fortalecimento dos direitos civis e o exercício crítico do poder político,
com reconhecimento do Estado de seus deveres e obrigações para com o bem estar
dos seus cidadãos – trabalho, moradia, segurança, saúde, lazer, saneamento
básico, abastecimento, meio-ambiente, etc., ações que configuram a qualidade
de vida de um povo de forma universalizada.
3.Prevençào da "dengue" no Calabar
A situação-problema identificada foi através do Plano Operativo da Comunidade do Calabar (Salvador, Bahia, Brasil), que elegeu a Dengue como uma de suas prioridades em saúde, quando então propomos que as alunas da disciplina Enfermagem em DT fizessem um trabalho educativo neste local, através dos alunos de 1° Grau da Escola Aberta do Calabar.
Situação-Problema-
Epidemia de "dengue".
Encaminhamentos
- Os
fundamentos filosóficos para encaminhar
esta questão tiveram como base o 3° princípio da
educação libertadora de Freire (1987),
a Organização,
a qual prediz como princípios para a ação pedagógica: 1.Organizar
com; 2.Coerência, ousadia, radicalização, valentia de amar, crença;
3.Clareza das Condições; 4. Adesão por simpatia. Os
fundamentos teóricos para a solução da situação problema tiveram como
aporte teórico a Sócio Poética, metodologia permeada de significações simbólicas
e imaginárias que transforma para conhecer, e o suporte da Técnica da
Estimativa Rápida (TER), usada para coleta de informações básicas, sem rigor
metodológico, e que privilegia as característica relevantes de determinado
território.
O trabalho constou de 4 momentos básicos: o 1° foi organizar
com as alunas outros conteúdos
além daqueles habitualmente construídos nas
pesquisas como a ousadia,
desde que a referida comunidade possui uma geografia cheia de labirintos, o que
favorece esconderijos e o temor. A crença
e a clareza de condições
nasceram de um encadeamento de técnicas como o
relaxamento, o teatro de imagens, a dinâmica da procura,
entremeada com leituras de textos sobre os referenciais teóricos utilizados e
respostas sobre os lugares sócio-míticos: Se a Comunidade do Calabar
fosse... (a terra onde crescem minhas raízes; o poço onde meu pensamento pode
cair; a ponte que permite sair das dificuldades;a falha entre eu e o instituído;
o labirinto onde eu posso me perder; um túnel onde existem relações
secretas). A valentia de amar nasceu
ao se agregar ao ato de pesquisar, técnicas que favorecem o
auto-crescimento.
O 2° momento foi o contato com o Posto de Saúde,
o Centro Comunitário e a Escola os quais ofereceram subsídios sobre a
comunidade, sendo a proposta organizada
com os escolares, tendo as
alunas de enfermagem, inicialmente, repetido com eles as técnicas que foram com
elas desenvolvidas. Os lugares sócio-míticos foram desvelados através de
desenhos onde foi perguntado:
Se a dengue fosse... (o poço, a terra, a ponte, o arco-íris).
O 3° momento consistiu na organização
com os escolares de um chek-list
(TER), do potencial básico do meio-ambiente, com 42 perguntas de sim ou não
sobre: a disposição do lixo; o ambiente construído; o ambiente natural; o
ambiente de vida e serviços sociais existentes. Guiando-se pelo mapa das áreas
da comunidade os escolares acompanhados pelas alunas fizeram o levantamento de
dados, recebendo adesão por simpatia
da comunidade.
No 4° momento, a comunidade foi convidada a para a
exposição dos trabalhos (desenhos, composições, mapas, fotografias, etc),
resultantes da pesquisa efetuada e de uma
dramatização sobre a prevenção e tratamento da dengue encenada pelos
alunos. A peça foi inspirada no musical Cats, e no 1° ato mostra um
lixeiro, onde uma grande família de aedes aegypti vive, liderada por uma
matriarca mosquita que planeja um ataque à cidade. Eles festejam
com apresentações de danças como a capoeira, a dança da garrafa, ballet,
etc, interagindo com a platéia e vestidos a caráter. O 2° ato encena uma família
doente de dengue onde a enfermeira vai visitar e implementar os cuidados específicos.
No 3° ato, volta a cena do lixeiro onde um fumacê extermina o foco dos
mosquitos e um gari, da própria comunidade, reclama e ensina, recolhendo as
latas, pneus, cascas de coco, etc., tudo o
que possibilita os criadouros do aedes aegypti que transmite a
dengue.
4.O
cuidar contra a violência na perpectiva espiritual
Foi identificado, através de dados do Fórum Comunitário de Combate à Violência, que em média, em Salvador (Bahia, Brasil), 20 crianças e adolescentes, por mês, são vítimas de mortes violentas, sendo 7 delas por assassinato. Estas vítimas são provenientes das camadas empobrecidas da população sendo o extermínio praticado em sua maioria pela polícia.
Situação-Problema – Violência e desvalor à vida de crianças-adolescentes.
Encaminhamentos
– Os fundamentos filosóficos
para encaminhar esta questão
tiveram como base o 4° princípio da educação
libertadora de Freire (1987) a Síntese
Cultural, a qual prediz como princípios para a ação pedagógica: 1.
Dialética permanência-mudança; 2. Investigação
temática; 3. Problematização; 4. Teoria
da ação educativa.
A busca de uma síntese cultural, indicou que as classes oprimidas, nas suas definições da situação saúde-doença, embora assimilem aspectos da cultura médica dominante, possuem também um código de resistência cultural centrado numa visão mais ampla do ser humano como corpo/alma-matéria/espírito. Esta visão, junto ao conceito de Galtung (1975) que afirma estarmos na presença de violência naquelas situações onde o desenvolvimento efetivo de uma pessoa, em termos físicos e espirituais, resulta inferior a seu possível desenvolvimento potencial, levou-nos a considerar que o tipo de cuidado exigido na situação-problema não poderia incidir primordialmente sobre o padrão fisiológico que é onde as enfermeiras são treinadas a atuar. Buscou-se então um cuidar na perspectiva do valor à vida, com identidade própria, qualificado e que de forma estratégica apreendesse o aspecto considerado crítico na situação-problema – violência e des-valor à vida – o qual foi denominado de científico-espiritual. O científico porque este cuidar não poderia estar desvinculado da pesquisa enquanto método e busca do conhecimento ou o que se revela à ciência para a transformação; espiritual por estar ligado à filosofia, teoria que reflete o ser humano como aquele que transcende o próprio mundo para penetrar na dimensão de suas potencialidades (Peter, 1999, p.25). Este aspecto indica a capacidade de interrogar, de escolher possibilidades, de dar sentido a elas e de transformá-las continuamente através da dimensão da consciência, instrumento universal e intrínseco, pela qual a pessoa se sente ligada ao todo.
O
cuidado científico-espiritual
indica, portanto, que no cuidar com envolvidos em violência, haja uma
re-alimentação sutil e humanizada,
que permeie todo o Ser, sendo o padrão
fisiológico um fio condutor
de acesso para a ação-reflexão na consciência. O corpo físico
não pode ser des-cuidado, mas não será o foco, e sim onde os
resultados se refletirão.
Este
cuidado pode ter o sentido religioso ou não, conquanto se estabeleça através
de um processo ação-reflexão-crítica, não idealista, não alienante do Ser e sim que o torne partícipe de uma
democracia que tenha o
sentimento de reverência à vida, muito
além dos conceitos filantrópicos de piedade e caridade.
Ele pode resgatar aspectos culturais próprios e/ou de outros, e
aponta para a necessidade de re-organizar forças e acolher conhecimentos
para um re-direcionamento de seus estilos
de vida e seus destinos. Nesta
perspectiva, o cuidar cientíco-espiritual
tem destaque na multi-referencialidade,
atuando nos padrões relativos
à transcendência, a identidade a
auto-estima e ao padrão social –
a cidadania - numa correlação crítica
consciência-mundo.
|
Solicita-se que os participantes sentem-se confortavelmente, fechem os olhos e inspirem e expirem lentamente, procurando aquietar a mente, com a atenção voltada somente para a respiração, durante uns quatro minutos; | |
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Instruí-los a lembrar de um acontecimento triste de sua vida e em seguida de um alegre; esperar mais 4 minutos; | |
|
Colocar a música. Quando a música acabar, pedi-los para abrirem os olhos lentamente; | |
|
Solicitar que comentem individualmente sobre a experiência vivenciada. |
Os
adolescentes citaram lembranças do tempo
em que era pequeno e era feliz, o
que foi correlacionado com o luto
pelo corpo infantil;
lembranças do tempo em que não precisava trabalhar, correlacionado com a perda
da identidade infantil;
lembranças do tempo em que meus pais não me batiam, correlacionado com o luto
pelos pais da infância.
Estes aspectos são denominados de lutos
ou perdas e ao serem expressos favorecem o manejo de suas estruturas psíquicas
frente ao mundo exterior, apoiando nesta situação, um período de mudanças
internas e externas, e consequentemente favorecendo o autoconhecimento, o
autocrescimento e a formação da identidade, processos de conscientização.
Aberastury et all (1992, p. 71) ressalta que
... se os sentimentos de perda são negados,
não existe o cuidado pelo outro nem por si mesmo, o afeto está negado e
a capacidade de gozo, na vida, diminuída. Estes são aspectos relacionados
às pessoas com praticas
violentas.
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